terça-feira, agosto 12, 2008

sexta-feira, agosto 01, 2008

Manual (WIP version)

Lá estava Márcio, de pé, testa suando e braços tensos dentro de uma camisa de mangas curtas. Olhava para os lados, para cima e para baixo, voltava os olhos para o material impresso e com esquemas coloridos que tinha nas mãos. Pessoas passavam, olhavam com suspeita e não entendendo, continuavam a caminhar. Mais outro e outro passavam, olhavam, paravam questionavam o jovem rapaz que, com concentração admirável a qualquer cientista, respondia com desdém que estava ocupado e voltava a ler o livreto. Esticava o dedo indicador, com os demais dobrados, lambia e levantava ao vento. Olhava para o dedo e lá continuava a calcular continuamente.


Havia estudado as instruções inúmeras vezes e, ainda que não compreendesse tudo, não entendia como os idealizadores de tal manual podiam nunca ter tido qualquer tipo de reclamação, solicitação de reembolso, ou coisa que valesse. Trabalhara por anos e anos a fio desenvolvendo manuais e sabia que sempre havia algo que falhava por conta das infinitas variáveis que não se podia prever. Como haviam conseguido chegar à excelência instrutiva, sem qualquer necessidade de callcenter ou ombudsman para o procedimento?

Tinha sido contratado pela concorrência para entender e determinar o que poderiam oferecer de diferencial em relação àquele pequeno e tão eficaz material. Sentia-se quase incompetente por nada conseguir concluir.

Uma tarde toda se passara e, nada tendo concluído, olhou para os lados, soltou a impressão no chão, esperou, como orientado, que não houvesse ninguém num raio de 100 metros, subiu no parapeito do viaduto, abriu os braços e se inclinando para a frente lançou-se em direção aos carros lá embaixo, sentido Centro-bairro da Av. 23 de Maio, naquela sexta-feira, 18:43h. Enquanto seu corpo caía, entendeu.

Dona Janete que morava num prédio próximo e que há muitos anos passava suas quietas tardes a observar a alegre vida de quem vivia lá fora, desceu correndo e, sem pestanejar, leu na primeira folha do panfleto “Suicide For Dummies”. À noite, enquanto passava uma velha calça amarela, ouviu no rádio “Homem branco de cerca de 42 anos, engenheiro, morre por triplo atropelamento depois de pular de viaduto em São Paulo. Os motivos ainda não estão claros, mas peritos atestam que morreu sorrindo...”