quarta-feira, fevereiro 26, 2014

press send to be free

Fiquei pensando naquilo de que uma vez abandonados os longos textos, a comunicação vai se fragmentando ad infinitum (o que seria de fato impossível, mas vá lá).

É verdade que chega um ponto de impasse entre cessar, small talk e o significado e profundidades comuns às mensagens mais longas e íntimas e charmosas e instigantes. Gosto dessas últimas mais que de quaisquer outras. Sentar e me deixar envolver, escrever o que tenho vontade, quando tenho vontade. Não precisar escrever mensagens e guardá-las a sete chaves numa pasta de rascunhos nunca enviados por quebrarem regras de ouro escritas por alguém que, certamente, morreu solteiro, entediado e absolutamente miserável, engasgado com as próprias palavras e risadas e chamegos e possibilidades.

Gosto do que é de verdade, não me importo quem manda, quem paga a conta --- verdade que, quando for eu, agradeço que me seja dada a chance de escolher o programa, como seria de bom tom. Mas de regras basta isso. Voltando ao papel tradicional entre os sexos, só importa mesmo a alguém que não quer se entregar e ver no que dá, talvez. Que não queira abrir mão de um status quo estabelecido. Que tenha medo de usar calças e bater o dito cujo na mesa, sendo mulher, ou de chorar e pedir colo ou ajuda, no contrário. Nada disso me estremece, gosto do que é de verdade, sem muito melindre, ainda que, claro, com cuidado.

Sou atrevida, vou atrás de algumas coisas que quero e que acho que podem valer a pena (deve saber do que falo, né?!). Outras eu deixo passar, algumas coisas talvez (talvez!) devam ser colocadas a prova. Sou forte, como muitas das suas mulheres, mas frágil exatamente na mesma medida.

E não sei por que estou falando nada disso. Talvez quisesse mostrar algumas dessas coisas de verdade. Mas a vida é assim. Às vezes, playing it safe é a coisa mais estúpida a se fazer.

Não vou fazer small talk que te cansa. Mas se quiser um big talk... anytime!

beijo.

°°°
essa mensagem ou suas frações não representam nenhuma obra de ficção e sua semelhança ou menção a qualquer situação, crença ou opinião não são meras coincidências.

domingo, setembro 08, 2013

isso

essa câmera
que me separa
e me junta
do mundo lá fora.
disso tudo
que é fora de mim.
que me junta
ou me faz em caquinhos
com os quais
--- em plágio ---
construirei meu castelo.
um dia.
um dia...

terça-feira, maio 21, 2013

Caracteres (WIP version)



Coalho
Santos era, quase paradoxalmente, um corinthiano ferrenho. Nascido e criado em São Paulo, foi soldado no quartel do Cambuci. Teve uma irmã chamada Ana, do mês de agosto de 36, que morava no Jaçanã... se eu perder esse trem, que sai agora às onze horas... só amanhã de manhã. Era bom de conversa, ainda que não se entendesse parte do que falava, seus olhos azuis ajudavam a “vou te falar uma coisa pra você”. Simples, do bem, de coração aberto. Conta com uma quase serenidade doída que perdera seu enteado há pouco mais de uma semana, e pára para secar a lágrima que brota do azul direito com as mão encarquilhadas e de um marrom de praia. Agachado, faz piada e ri. Paga seguro saúde e seguro de vida que já ajuda a pagar o enterro pra ficar tranquilo e não atrapalhar ninguém.  Fica sério, chora e, mais que tudo, ri. Me convidou pra, quando me aposentar, ir vender queijinho e camarão com ele na praia. Diz que ainda dura trinta e dois anos, vai morrer com cem, vendendo queijinho e camarão na praia. E deixa que eu pague amanhã --- quando faz sete anos de casamento estável --- o Real que faltou.

Porto Seguro
Com rosto tímido, corpo magro e conhecimentos emergenciais de elétrica e hidráulica, tem uma quietude simples, mas firme. Não sabe nada de nada, mas, tranquilo, se oferece pra ajudar, enquanto seu Cráudio aguarda com sua emergência doméstica. Tem problemas, mas desses ele dá conta, não consegue deixar uma donzela em perigo. Deita no chão com lama, deixa o dia escurecer e não pára até que a moça esteja fora de perigo, para só depois ir trocar o pneu do próprio carro. Insiste que ela se vá, que ele consegue se virar, mas falta luz e ela não pode. Tit for tat. Tem um bom coração e dizem para deixar de ser bobo, mas ele chama isso de ser bom. Não quer dar a mão, está suja, e fica sem jeito.
Dia seguinte, vê a carruagem dela e deixa seu telefone abaixo da simples frase gustavo.porto.seguro num papel preso no puxador da porta.
Dor nos corações, mas seu telefone nunca toca.

domingo, março 31, 2013

ausência

"escrevo para a realidade se tornar inofensiva" (dizia Henri Michaux)
minha ausência de escrita me mostra o quanto de realidade vem me enroscando a cada dia...
sem mais.

sábado, maio 07, 2011

36 lbs

Ele até que era bonito, ela pensou. Usava uma bermuda branca, uma polo bege e uns sapatos moderninhos nos mesmos tons. Olhava pra ele de lado, quase de canto. Sentia um pouco de vergonha, nada de mais. Estava descabelada, com calças pretas de sua mãe e uma blusa de frio cinza, sem blusa por baixo, tinha tirado a branca que tinha para não sujar uma blusa de sair.

Ele não parava de olhar, estava encantado. Parado ao lado do carro, com a boca semi aberta e larga. Ela, sem saber o que fazer, não baixava mais a guarda, não sabia como era mais. Prendeu os cabelos com um elástico preto que trazia em volta do pulso direito, tirou o capacete que estava preso ao banco, montou e começou a pedalar. Quando chegou à rua, ainda olhou para trás: 'ele ainda está olhando? ainda dá tempo de sorrir?'

Pedalou três quarteirões e, chegando em casa, ouviu abafado: 'onde estava?'. 'Fui encher os pneus da bicicleta', respondeu e pensou: 'pena que não.'

você tem medo de quê?

Meus pais e eu sempre tivemos um relacionamento bom. Tão bom que consegui viver com eles até agora, o que, afinal, pode não ser tão bom assim. Como a maior parte dos erros e defeitos dos filhos, segundo Sigmund Freud, é tudo culpa deles!

Não casei até agora porque minha mãe sempre demonstrou que a relação com os homens, apesar de muito rica e de poder nutrir muitas coisas, é bastante complexa, carrega consigo dores, ruídos, mágoas e escolhas sempre doloridas. Deixar isso por conta daquilo, quando ele fez tal coisa, eu tive que fazer essa outra, ele não entendia esse tipo de necessidade e me deixava sem apoio por isso. Fora a hermeticidade de sentimentos e questões mal resolvidas que ficavam sempre lá no fundo de um armário que abrigava as pesadas roupas de um inverno que estava longe, mas de cujo frio todos lembravam.

Não confio nos homens pois meu pai nunca foi lá um grande santo. Um bom homem, sem dúvida, com ótimas intenções, mas que tinha lá seu jeitinho próprio de atingir seus objetivos, fossem eles vender uma grande caixa de pastas de dentes a um banguela ou ser um grande provedor do que quer que fosse, ele sempre conseguia. Eu conhecia as histórias, os resultados e, infelizmente, algumas duras conseqüências. Eu tinha parado de confiar e de acreditar que o mundo era sempre bonito e bom.

Algo disso era bom ou ruim? Não. Era o que era. Eu não tinha saído de casa, não tinha casado e todo o resto era história.

Não conhecia as demais ricas teorias de psicologia e análise, mas alguma coisa me dizia que, por trás desse papo todo de culta dos pais havia, sim, outros motivos: era muito mais confortável. A casa mágica onde se espirra e o almoço está pronto, a cama se faz automaticamente enquanto estou no trabalho, não preciso me arrumar, arrumar o cabelo, pintar as unhas e reprimir meu gênio difícil, opiniões fortes e criticismo para ser amada. Posso chegar cansada depois de um longo dia de trabalho, dar coices a torto e a direito e ainda ter com quem conversar até conseguir me jogar na cama pra dormir quentinha --- sem ter que lavar roupa ou esfregar o chão do banheiro antes. Alguém me diz todos os dias antes de sair "deixa eu te ver", "comos estás linda!" e lá saio eu, com ar blasé e de quem não se importa com nada daquilo, mas que, no fundo, sabe muito bem o quanto daquilo faz bem, acolhe e protege do mundo que me espera lá fora quando, finalmente, eu resolver deixá-los em paz e for viver minha vida.

Meus pais e eu sempre tivemos um relacionamento bom. Tão bom que consigo viver com eles até agora, o que, afinal, é bom demais. Só não posso deixar que seja bom assim pra sempre.

domingo, maio 01, 2011

Escritor é quem escreve

Um amigo me diria: "escritor é quem escreve". Ele, como eu, é um 'escritor' que acabou por se embrenhar no mundo publicitário e ficando lá ao invés de escrever. A diferença básica é que ele é (acho eu) bem sucedido e tem uma carreira promissora (a custo de muito trabalho, claro). Já o meu presente não é assim tão obviamente bem sucedido (ainda que haja controvérsias) e o futuro bem incerto. Mas, claro, isso tudo é apenas um daqueles parágrafos introdutórios para me proteger do meu prórpio medo, caso este texto saia péssimo: só o estou escrevendo como exercício, praticando a escrita para quem sabe um dia me tornar de fato escritora, ou não. Isto dito, armas ao chão e dedos ao teclado...

(Aquilo que eu tenho como sendo uma boa) Receita para ser um bom escritor
1. Disciplina
Escrever pode ser algo bastante natural e mesmo necessário no dia a dia ou em momentos de crise emocional, mas para ser escritor [as in viver disso] é preciso dos 3 elementos: do sangue, do suor e das lágrimas. As lágrimas e o/ou o sangue você até pode conseguir dependendo da crise emocional ou da criatividade e tipo texto que pretende; mas o suor, meu caro, é mesmo conseguido através de uma infinidade de letrinhas digitadas umas atrás das outras, sentidas na ponta dos dedos, dia após dia, até que comece a ganhar ritmo e que escrever passe a ser absolutamente essencial, como respirar.


Para os que, como eu, acabam muitas vezes sucumbindo à preguiça, falta de tempo, um bom filme ou mesmo à insegurança quanto aos próprios textos, sugiro um mantra, repita-o incessantemente: "escritor é quem escreve, escritor é quem escreve, escritor é quem escreve..." Serve como lembrete... ou lembra que é fundamental escrever para ser escritou ou que está na hora de escolher uma nova profissão.


2. Silêncio
É preciso espaço no pensamento para que as palavras se movam na cabeça e vertam pelos dedos. O silêncio não precisa necessariamente ser sonoro, mas precisa ser aquele espaço entre um pensamento e outro, ali onde alguma coisa acontece e que precisa começar a sair em forma de texto, sendo ele planejado ou daqueles que vem como uma música que não sai da cabeça até que você a cante bem alto ou conte a alguém e a passe adiante... até que seu texto vá encantar outras mentes e você volte ao normal e comece a dar espaço a outras palavras. Para escrever, pode-se ter músicas, pessoas, ou o Rock In Rio ao lado, desde que a mente esteja quieta para todo o resto e presente apenas para escrever.

3. Liberdade
Escrever com amarras é um suplício. Pode-se ter uma opinião, um objetivo em vista, uma trama ou um tema, mas nunca amarras. Esteja livre para seu texto acontecer, ele pode ser editado, mas deixe-o acontecer primeiro, depois você volta e corta as asinhas que achar que estão além do que buscava. Os textos que acontecem, quase como imagino que seja uma psicografia, são sempre os de que mais gosto; são sempre aqueles em que pensei menos e que ornam, que não se importam com críticas, risos ou mesmo com o fracasso. São textos gloriosos e com um quê de verdade mais verdadeira que as demais. Acima de tudo, escrever liberta, não escravize o processo.

4. Tempo
Escrever qualquer coisa é fácil, forma um pensamento racionalmente organizado, digita as letras uma atrás da outra, pausadas por espaços e símbolos de pontuação, passa o corretor ortográfico (até porque, ao não se dar ao trabalho de se envolver no processo, é mais fácil errar) e voilà! em poucos minutos tem um texto gramaticalmente correto e, salvo exceções, sem nada além disso. Mas escrever no sentido mais 'poético' do termo é um processo que começa muito antes de chegar perto de um teclado (ou de um lápis e um papel). Mesmo sem perceber, os elementos do texto, da emoção que vai imprimir nele, dos argumentos, já estão todos no escritor antes de acontecer. Talvez como esteja o instinto assassino em um criminoso. Ou o distúrbio que faz roubar a um cleptomaníaco ou a transar freneticamente de um ninfo. Já está tudo lá, há que se ter tempo para que o instinto encontre oportunidade, motivo e ação para que o crime aconteça. Tenha tempo, mas não usa a falta dele como desculpa para não escrever.

5. Paixão
Ter paixão pela palavra é das mais importantes no processo de escrita, ajuda a envolver, a dar nuances e sentidos, faz sentido por si só. Mas a paixão afetiva já ajudou muitos autores a escreverem belos textos, assim como  o luto por ela. A paixão por si só, seja qual for o objeto, move um escritor (ou qualquer outro artista). Ser viceral enquanto se escreve é um trunfo. De um lugar quase atômico que saem os bons textos. Use a paixão para ir a esse lugar e trazer à luz textos vivos e intensos, sejam quais forem as temáticas e estilos. Escreva com paixão.

6. Escrever

Por mais simples que seja esse ingrediente, escreva para ser um bom escritor. Sente-se e escreva. Tendo ou não os itens acima, escreva. Sabendo sobre o que escrever ou não, escreva. Mesmo sem saber por onde começar ou onde vai chegar, escreva. Mesmo errado, escreva. No papel, computador ou na cabeça*, escreva. Escreva sempre. Afinal: escritor é quem escreve.

* muitos dos meus textos preferidos foram escritos em minha cabeça, por falta de papel, por não poder parar o carro na 23 de Maio na hora do rush, por estar no meio de uma corrida de 10KM... nada deve ser desculpa.

quinta-feira, dezembro 30, 2010

R.I.P. (WIP version)

Chegou atrasada, batendo o mat nos pés de duas pessoas que já estavam estendidas no chão. Pensou "namastê" e, por alguns segundos se sentiu ridícula e inadequada: sabia que não era pra falar assim... "namastê???", por que tinha comprado um mat pink, todos usavam tons pastéis. Queria pedir desculpas, queria fugir e nem era por causa de nada daquilo. Nada daquilo fazia parte.
Esticou o mat mesmo pink no canto abaixo da janela a ver se sumia na imensidão da grande sala, soltou os cabelos na tentativa de soltar a si mesma, sua tensão. De com o gesto deixar de ser quem era e passar a ser solta, equilibrada e quase flutuante.
Deitou-se de costas com as pernas esticadas e os braços ao longo do corpo. Devagar. Fechou os olhos sem apertá-los, sentiu como se pesássem na parede do crânio do outro lado da cabeça, como se pesássem sobre o chão. Soltou seu peso, parte por parte. Pedaço por pedaço. Músculo por músculo. Dedo por dedo.
Uma voz íntima e serena falou baixo próximo de seu ombro: "Ouça os sons de tudo, de perto e de longe, até que façam parte de você. Até que cessem." E como numa chuva que cai forte, mas não de repente, começoua ouvir.
Talvez uma ou duas pessoas não estivesse estáticas e moviam nitidamente a perna ou o braço bucando posição para relaxar. alguém pisava leve sobre o tatame de palha, como se pesasse 200g. Pisava e parava, pisava primeiro o calcanharm, o corpo da sola primeiro fora, depois dentro e depois os dedos e tudo ia saindo de novo lentamente desgrudando do chão e fazendo um estalado quase surdo que se misturava ao som de um avião que pousava no aeroporto lá fora, não muito longe e cujas turbinas se misturavam com o som do motor do carro que estava ligado e parado na rua. Uma música tocava uma batida que fazia apenas um zum zum abafato que tremia o vidro do carro.
O portão abriu, um oi, um obrigada e um qual o seu nome nervoso. Alguém tinha se apaixonado. o portão ficou aberto e a conversa continuou sem querer, sem esforço, sem palavras que se distinguisse. Um cachorro latiu longe e todos os sons continuavam sem nenhum chamar atenção, faziam parte.
Respirou mais forte, ouviu quando expirou, começava a fazer parte também. Ouvia o ar entrar e sair, arranhando de leve as paredes das narinas. Entre inspiraçao e expiração já não fazia nada, haviaum vácuo natural que deixava um espaço, tocando de leve, como se viesse de um poço fundo e ecoado, uma batida surda, e outra, e outra e mais uma. Ritmada, fixa, uniforme, leve. Era isso. Tudo havia cessado.
Relaxe, pensou. Relaxe. Só havia aquele som. Só ouvia aquele som. Até que não ouvia mais. Nada.

sábado, novembro 06, 2010

e, às vezes, pra parar de ter medo da solidão, basta fechar os olhos ao invés de prestar atenção.

fica  dica de um texto bem bonito sobre uma garota (mais nova, é verdade) como eu: Medo da Solidão (Patricia Ortiz)

domingo, setembro 19, 2010

denorex

há pouco recebi uma ligação engraçada e que não entendi por alguns momentos: um amigo com quem há tempos não falava me liga, assim, domingo de manhã. segundo ele, ainda estava na cama, com o note no colo e deu saudades... (até aqui, fine!) pergunta como anda a vida, insiste na parte amorosa e eu "está tudo bem! está tudo bem!"... alguns minutos de enrolação esquisita sobre o assunto até que eu entendi. ele diz: "pô! a gente é amigo há tanto tempo... pára de bancar a forte e me conta quem foi o fdp que fez você sofrer?!"
a pergunta foi obviamente seguida por um certo silêncio... e, então, ri. ri alto e gostoso...

curioso... não se pode citar um coração partido sem estar com ele doendo? "foi uma mostra, fulano! só fui a uma mostra sobre o assunto!" (não que eu não tivesse historicamente muito material para a autora da obra)

meu coração está inteiro, curtindo o momento, louco pra se jogar de cabeça em uma nova
(ou velha reinventada) história, aventura, caso ou o que quer que seja, desde que seja algo que o faça, mesmo que por alguns poucos minutinhos apenas, parar e depois bater mais forte, gelar a barriga, ficar sem palavras, falar besteira, agitar as mãos, dar sorrisinhos de lado... tá pronto pro que der e vier.

pois que venha.

sexta-feira, setembro 17, 2010

e continuando a temática anterior, fica o link de um vídeo bem bonito do Museu dos Corações Partidos.